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domingo, 26 de junho de 2011


«A POESIA E AS “VOZES DO PENSAMENTO”, por Isabel Rosete

No "Clube literário do Porto"

Agradecimentos:

Boa Trade.
Sejam muito bem-vindos a esta palestra.
Agradeço a vossa presença e a vossa participação nesta sessão de louvor á Poesia e de apresentação da minha poesia e do meu pensamento, quiçá também o vosso, inscrito neste meu/vosso livro, “Vozes do Pensamento”, uma obra para espíritos críticos.
Grata estou, igualmente, ao “Clube literário do Porto” por tão bem me acolher.

I. Breve nota sobre a Poesia

Estamos aqui reunidos para celebrar a Poesia. Sempre que um poeta nos dá a conhecer a sua obra, é a Poesia e a sua poesia que se torna a protagonista do palco onde a ouvimos e a expomos. Afinal, a obra fica para além do seu autor e, neste sentido, ultrapassa-o, mesmo que ninguém a leia:

A obra clama da eternidade que contrasta, de um certo ponto de vista, com a efemeridade física da pena que a escreveu. Porém, é por esta via de protesto da luta do tempo com o tempo, que se imortaliza o nome do punho que a ergueu, porque nela deixou o seu sangue, que é o seu espírito impregnado em cada palavra dita ou não dita, a sua identidade irredutível, nunca substituível por nenhum outro, mesmo que o poeta não saiba o que sobre si mesmo dizem os seus versos.

O tempo do poeta, sempre o nosso tempo, é o da sociedade em que está inserido, da Cultura que a move ou desvirtua; é o tempo recente e presente que não se perde na vertiginosa passagem dos séculos que lhe sucederam.

O tempo do poeta é o hoje que do outrora se projecta num futuro a desenhar, porque é à visão do seu quotidiano, igualmente o nosso, que vai buscar a inspiração facilitadora da conquista e da atenção dos seus ouvintes, dos seus leitores: é a poesia que fala em nós, e não nós que falamos por ela; é a poesia que nos interpela, e não nós a ela.

O testemunho de Jorge de Sena torna esta tese ainda mais clara, quando afirma na obra «De Pedra Filosofal», no poema “Para o aniversário do poeta”:

“Não passam, Poeta, os nãos sobre ti,

Embora sejas mais mortal que os mais;

No tempo, viverás longe daqui,

No espaço, apenas deixarás sinais.

E quando, pelos campos silenciosos,

Lá te encontrarás nas ondas dos trigais,

Repara como fogem receosos,

Para o poente, os ventos luminosos –

Antes que os homens nasçam teus iguais.”


A Poesia não é apenas “cousa” de hoje, não se arquitetou, assim de repente, num rasgo acto ex-traordinário da imaginação criadora. Não é pura vagabundagem do espírito que se aventura nas aventuras da escrita. Não é o soltar aleatório das amarras de uma qualquer mente em estado de efervescência alucinatória.

A Poesia é “cousa” de ontem (e de sempre), anterior ao que conotamos de pensamento racional ocidental, nascido nas franjas da civilização grega inicial, da qual perdemos, pela tecnização e massificação do mundo das palavras, a sua função primacial: a intenção/missão didáctica dos primeiros educadores helénicos, os Poetas – e entre eles devemos destacar Homéro em cujos poemas/narrativas poéticas se encontra um ideal de vida e de cultura, segundo uma determinada hierarquização de valores que não é jamais anacrónica, desactualizada, na sua essência e fundamentação, nos seus intentos e determinações.

Tal como Homero fora o educador da Grécia palco do que somos e não somos hoje , mostrando ao seu Povo o que ele era historicamente situado num espaço e num tempo próprio que não se esgotaram no momento do seu acontecer, os nossos poetas foram, são, os verdadeiros educadores do nosso Povo, transmitindo a sua essência, a sua Alma-Pátria, apresentando os seus desígnios, o que já foi cumprindo, como exemplificação dessa essência, o que ainda há para cumprir e urge que seja realizado no seu momento próprio, que não pode ser adiado, sob pena da desestruturação desse mesmo Povo e da sua Nação.

Os poetas (e o que é dito sobre os poetas é igualmente válido para os filósofos) são educadores no sentido mais lato do termo “Educação”, entendida como formação global do homem enquanto homem e do homem enquanto cidadão com os seus direitos e deveres cívicos.

Os Poetas ensinam, instruem, formam e enformam a matéria bruta que somos, ao registarem, pelas palavras de origem, o percurso existencial que realizámos e vamos edificando como povo histórico.

Os poetas são relatores e mensageiros. Também profetas, visionários de um tempo que há-de vir, perfilhando no presente os caminhos certos a seguir, no futuro mais próximo ou mais longínquo, em nome do progresso progressista do seu Povo enquanto Nação com identidade própria (contra a desedificação provocada pela globalização, diríamos hoje e agora).

E se o Poema “é a voz de toda a gente, todos eles, que, /não se tendo ouvido, não a sabem sua” (como afirma Jorge de Sena em «De Post-Scriptum»), a voz do poeta é a voz historial do chamado da sua geração e das gerações vindouras que, farão do futuro, o passado do que as outras foram ou não foram, elevando as suas virtudes e corrigindo os seus erros. Afinal, tal como os filósofos, os poetas «não crescem como cogumelos, são frutos da sua época, do seu povo, cujos humores mais subtis, mais preciosos» circulam nas suas ideias, sempre predispostas para se colocarem em acto.

O poeta vê o fundo das coisas na sua evolução, extraindo os véus, as máscaras que as envolvem e escondem o seu verdadeiro rosto, por vezes, camuflado em outros visos que já não são os seus. Vê “claramente visto”, e afirma-o do mesmo modo, quer dizer, sem dúvidas, sem hesitações, com a convicção firme do dito e do feito, transportando a verdade em si.

O olho do poeta enxerga por dentro. Assim também são os seus ouvidos capazes de escutar os ultra-sons de uma forma inigualável, capazes de escutar todos os sons que ouvimos e não ouvimos. A sua escuta, tal como a sua visão, é atenta, perspicaz, íntima, estando sempre dentro e fora dos acontecimentos, dos factos, do real e do possível, o que lhe permite uma espécie de visão e de audição dupla, mergulhada nas entranhas do Ser.

O mesmo se passa com todos os seus outros sentidos – o olfacto, o tacto, o gosto – holisticamente interseccionados. Nada lhe escapa, contrariamente a nós, que somos entes de mentes bicéfalas, sempre distraídos com que nos parece ser.

Ouvir a voz dos poetas é aprender, saber, crescer, sobretudo qualitativamente. Cabe-nos, então, perguntar de consciência lúcida: de que estamos á espera para escutarmos a voz dos poetas? De continuáramos no marasmo da ignorância que não é douta? De afundarmos ainda mais o país em que vivemos? Não sabemos que há um 5º ou um 6º Império que urge realizar já no seio do caos existencial em que vivemos, material e espiritualmente, nestes tempos de infortúnio, a que simplesmente chamamos crise, pelo vazio das palavras que todos os dias nos chegam pelos discursos demagógicos ocos de conteúdo, em virtude da ausência de conceitos e de projectos autênticos que nos movam à realização das acções, de facto, necessárias?

Se sou ou não poeta, quem sabe que o diga. Porém, tomo como minha esta missão dos Poetas – com humildade e sem arrogância – recusando-me a calar a minha voz sempre que a tenho de erguer, recusando-me á postura do negativo silêncio enquanto forma de cobardia, de comodismo ou de hipocrisia – emerso em qualquer solar de estátuas amputadas.

Por isso, faço ecoar as minhas palavras apresentando-as sobre a forma da minha poesia que diz, em plena transparência, o meu pensamento. Por isso, publico e faço as sessões de apresentação das minhas próprias obras e das muitos outros com cujas ideias estou em sintonia, com o genuíno intuito de partilhar com os meus pares a minha visão do mundo, em nome da Verdade do que realmente é, condenando os ignóbeis actos dos homens e celebrando os seus nobres feitos, que pretendo sempre seguir, apesar de todas as minhas limitações de género e de espécie.

Assim concluo este primeiro ponto, afirmando que a Poesia é absolutamente essencial à Vida e ás nossas vidas, concretas e determinadas. É o seu alimento vital, o sangue que corre pelo espírito do Mundo, dos Povos, alimentando o ciclo das gerações que se sucedem quer na sua desventura, quer no seu estado de glória tão-só porque:

1. Diz a Vida em todos os seus aspectos espirituais e materiais. Por isso, e como afirma Jorge de Sena na obra “De coroa da Terra”; são “inevitáveis outros poemas novos/ sinal da nova gravidez da vida/ concebendo, alegre e aflita, mais um mundo novo,/ só perfeito e belo aos olhos de seus pais”. E a Vida, continua o poeta, que é prostituta ingénua,/ terá, por momentos, olhos matérias.”;

2. Diz nossas vidas, tal como elas decorrem quotidianamente, em todas as suas múltiplas vertentes, descrevendo-as, caracterizando-as nos domínios do Pensar, dos Afectos, das Emoções, referindo-se, sempre, a nós, como seres humanos reais que somos, em toda a nossa grandeza e miséria;

3. Revela as nossas aventuras, sonhos, desejos, no Amor, na Dor, no esquecimento e na Morte, na Alegria ou na Tristeza, na Felicidade e na Gloria, nos nossos encontros e des-encontros que preenchem a nossa existência de “animais racionais”, também bicéfalos, construtores e destruidores de mundos, da Vida, à qual sempre voltamos.

4. O que somos, em corpo e alma, na sua união ou oposição;

5. E manifesta os nossos medos, fobias, paranóias, desacatos ou obsessões; exuberâncias.

II. Apresentação de “Vozes do Pensamento”

Trago-vos hoje a minha poesia de crítica social e política de natureza filosófica, claramente exposta e livre de todas as máscaras, nestas minhas/vossas “Vozes do Pensamento Uma obra para Espíritos Críticos” – aqueles que mantêm a sua Identidade e não são sujeitos a manipulações – onde demonstro tudo o que atrás foi dito e que acabei de salientar nesta pequena introdução de louvor e saudação à Poesia.

O objectivo desta minha primeira obra publicada em Portugal (a segunda, a terceira e a quarta, que darei a conhecer a este País e a todos vós, já estão no prelo e serão publicadas entre o decorrer deste ano e o início do próximo, se tudo correr conforme o previsto) é explicitamente indicado no seu “Ante-começo”, também por mim escrito, para todos os meus futuros leitores, numa certa forma de prosa poética (gosto de ser puramente transparente nos meus intentos para com todos os que me vierem a ler).

Vozes do Pensamento, exterioriza como o próprio título indica, as vozes que há muito ecoam dentro do seu pensamento, que viaja por todos os lugares, nessa eterna busca pela verdade e pela sabedoria, pelas essências das coisas que, amiúde, se nos ocultam. Talvez esteja a fazer Filosofia através da poesia, como sugerem alguns dos seus leitores.

Esta obra é um desabafo da minha alma e do meu corpo sobre mim mesma, e sobre o mundo, tal como ele é e me apresenta em todas as suas dimensões que, quiçá, corresponde a muitos desabafos da grande generalidade dos seres humanos.

Nela homenageio alguns dos meus “musos” inspiradores (Rainer Maria Rilke, Nietzsche e Heidegger, explicitamente, entre outros não directamente nomeados – Álvaro de Campos, Eugénio de Andrade, Natália Correia ou Florbela Espanca).

Isabel Rosete
Maio de 2011

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Auto-retrato



Tenho tantas faces, tantos rostos,

Tantos Eu(s), tantos heterónimos,

Homónimos, em inúmeros visos

Ainda não des-velados!



A insatisfação preenche-me o Ego.

Nada lhe basta. Está aí,

Por aí, algures,

Sempre insatisfeito.



Identifica-se com o Tudo

E com o Nada, num mesmo

E só instante existencial.

Deambula pelo Universo,

Sem sair do seu próprio Mundo.



Quantas contradições rodopiam

Dentro deste meu espírito,

Sempre irrequieto!


Isabel Rosete, in "Vozes do Pensamento"

sexta-feira, 27 de maio de 2011

CONVITE:

É com muita satisfação que vos convido a participarem na 13ª Sessão de apresentação do meu livro "Vozes do Pensamento", a realizar na "Feira do Livro do Porto", no dia 7 de Junho (terça-feira), às 21h, no respectivo auditório, pela Editora Ecopy.

Aguardo a vossa presença.

Será mais uma oportunidade para conhecer pessoalmente os meus futuros leitores e comentadores.

Saudações poéticas,
IR

domingo, 3 de abril de 2011



11ª Sessão de apresentação de "Vozes do Pensamento", Vermoim, Maia (Porto) 2 de Abril de 2011

O meu gentil agradecimento à Maria Mamede e ao José Gomes, que me convidaram, e a todos os presentes que muito me honraram com os seus elogiosos comentários, me escutaram atentamente e aplaudiram entusiasticamente.
Bem-hjam, em nome da Poesia que nunca cala a sua voz.




sábado, 12 de março de 2011


A Paz não se aquieta mais
Dentro de mim!

Não sou Atlas,
Mas carrego nas costas
O peso do Mundo.
O peso das convivências
Impiedosas
Que me atormentam o espírito.

O peso dos olhares impertinentes
Que me crucificam, da tolerância
Dissimulada
Que me esgota a alma.
O peso dos sorrisos,
Fingidos
Que me consomem a mente,
Da vileza sórdida
Que me rouba a seiva.

Que raio de gentes!

Só na vida alheia tropeçam
Isentas de indignidade.

Ai, essa maldita
Intromissão no alheio!
Ai, essa maldita
Farsa da unidade!
Ai, essa maldita
Mesquinhez do pré-conceito!

Que raio de gentes!

A Identidade, desprezam.
A Diferença, condenam.
A uniformidade, preservam
Como se o único lhes fosse alheio.
Em nome da impostura social
Que não pode ser adiada,
Em nome da falsa ordem,
Que não deve ser des-velada.

Isabel Rosete, in “Vozes do Pensamento”

O preço da Identidade
Anula as mentes enfraquecidas,
Alucina as personalidades
In-distintas, manipula-as
No seio das multidões
Sem rosto próprio,
Devolve-as ao anonimato
Que convém à Hipocrisia.

Isabel Rosete, in “Vozes do Pensamento”



Amo o Sol, tudo o que brilha
Pelos raios da felicidade anunciada
Numa intensa alegria ou vã agonia.

As palavras soltam-se
Da minha boca
Como dardos certeiros
Por entre as estrelas que ainda brilham.

Aos homens se dirigem,
Visam o seu rosto
Suspenso e decomposto
Na face dos grandes mistérios do Mundo,

Nos terrores da Guerra,
Nos visos sanguinários e denegridos
De todos os opressores,

Nos medos das gentes acabrunhadas,
Maltratadas, em nome de um tal dito
Progresso, nas trevas, um dia lançado.

Isabel Rosete, in "Vozes do Pensamento"

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

ENTREVISTA DADA POR ISABEL ROSETE AO JORNAL "DIÁRIO DE AVEIRO"

Realrosete


“A Filosofia devia ser um dos pilares da política”

Isabel Rosete, cuja vida tem sido dedicada à Filosofia, é autora de várias obras poético-literárias, preparando-se para publicar outras três em breve

Carla Real

Com 45 anos, Isabel Rosete, de Aveiro, possui um mestrado em “Estética e Filosofia da Arte”, é doutoranda na mesma área. Professora de Filosofia, é também responsável pela publicação de várias obras poético-literárias e de cariz científico.



Porque decidiu enveredar pela área da Filosofia?

- A Filosofia tornou-se uma verdadeira paixão (eterna), desde o meu 11.o ano. Tive a sorte de me ter cruzado, nessa altura, com dois professores extraordinários, que, até hoje, recordo como autênticos modelos do que é ser, de facto, professor de Filosofia: sabiam o que é a Filosofia, qual a sua real utilidade e como a ensinar, devidamente, aos adolescentes em formação pessoal e social continuada.

Mostraram-me como a Filosofia é absolutamente imprescindível na vida quotidiana, porque só fala do que é e de quem é o Homem, do seu ser e do seu estar consigo mesmo, com os outros homens, com a Natureza e com o Universo; que é essa radical e abrangente área do saber que mostra todas as coisas tal como são na sua autenticidade, rompendo os ignóbeis véus das aparências, sem preconceitos de qualquer espécie, quais cancros que minam, cada vez mais, a sociedade presente, lamentavelmente afastada das lides filosóficas.

Demonstraram-me que a Filosofia é, primeiro: a própria vida em todas as dimensões, e que, por conseguinte, viver sem ela, não é propriamente viver, mas, tão-só, sobreviver de olhos cegos e ouvidos surdos; e segundo: o maior e mais nutritivo alimento do espírito, do pensamento, a que, afinal, nós, Homens, nos reduzimos, sem esses abstraccionismos linguísticos ou conceptuais que lhe costumam atribuir.

E a Psicologia? Quando aparece?

- A Psicologia surgiu por arrastamento, embora como um complemento integrante e indispensável da própria Filosofia, sempre com ela interseccionada. Esta outra paixão (também eterna e em crescendo), surgiu quando frequentava o 10.o ano. E, tal como a paixão pela Filosofia, intensificou-se profundamente enquanto cursava a licenciatura de Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde tive o privilégio de ser aluna de grandes mestres, de conviver com verdadeiros professores, igualmente modelos de docência, a quem devo tudo o que sei e sou hoje.

A Isabel destaca-se pela forma peculiar como aborda a cadeira de Filosofia, muitas vezes considerada “monótona” pelos alunos. Como faz para os cativar para essas matérias?

- Transmitindo-lhes o entusiasmo, plenamente vivo e sentido que, em mim, a Filosofia fez emergir, pela sua irredutível necessidade e utilidade permanente. A Filosofia, que só deve ser leccionada pelos profissionais portadores da convicção do ser filósofo e não por aqueles apanhados pelas negras malhas que regem o docente-funcionário público, “cumpridor” de programas para as estatísticas, é um bálsamo para as novas mentes em formação, e não mais uma actividade supérflua ou um conjunto de ideias abstractas reservadas a uma determinada elite.

Esse cliché de que a Filosofia é “abstracta” surgiu daqueles que subverteram a sua essência em virtude de uma leccionação “monótona”, resultante, não da Filosofia em si, mas de um mero e terrível papaguear de conhecimentos exclusivamente a partir de um manual escolar, sem criatividade de materiais e de estratégias didácticas que estimulem os alunos para o crucial acto de pensar.

O Portugal de hoje é um exemplo, “claramente visto”, da ausência desta atitude nos políticos que nos (des)governam. Esta é uma constatação convicta da real e urgente necessidade da Filosofia como um dos pilares fundamentais onde a política deve alicerçar-se.

O verdadeiro professor de Filosofia é, por essência, um pedagogo, um guia, um orientador que auxilia os alunos nos respectivos partos intelectuais, que os estimula a parir ideias que, nas suas mentes, estavam em estado de latência e que, por esta forma de amor à sabedoria, são espicaçadas e, então, brotam para o estado manifesto.

Descreva, sucintamente, as obras poético-literárias que publicou até agora.

- São obras de cariz eminentemente filosófico. Aliás, devo confessar-lhe que foi justamente a Filosofia, assim sentida e vivida, que me abriu o caminho para a poesia, para a prosa poética e para a literatura. Estas sementes começaram a germinar com mais visibilidade aquando da feitura do curso de mestrado em “Estética e Filosofia da Arte” e, sobretudo, durante as investigações realizadas para a tese de Doutoramento em curso, dedicada – a partir do pensamento de Martin Heidegger – à poesia e ao canto dos poetas, perspectivado ecologicamente.

Concebe-se a poesia enquanto forma privilegiada da arte se dar (para Heidegger, e para mim também, toda arte é poesia), como a forma explícita de salvaguarda da Terra, como o grande grito universal do pensamento contra as investidas do projecto da ciência-técnica modernas que minam e corrompem a Natureza, provocando constantes desequilíbrios eco-sistemáticos. E, deste modo, como meio de alerta para a necessidade de se redimensionar e reestruturar uma outra humanidade, cujo pensamento não seja mais inconsciente e calculista, e cujas mãos não sejam mais exterminadoras.

Cada obra minha publicada em antologias poético-literárias nacionais e internacionais, exprime estas preocupações, esta minha forma de auscultar o mundo humanamente e em plena harmonia com a Natureza, onde me integro ou não, completamente, quer me refira a “Vide-Verso”, “Roda Mundo 2008”, “Poiesis” ou “Roteiro(s) da Alma”.

Nelas, pode ler-se, entre outras, “Quantos são os mistérios da escrita”, “Nas montanhas do coração” (ensaio sobre o poeta alemão Rainer Maria Rilke), “Advém o turbilhão dos sentidos”, Ouso ousar o tudo”, “Abomino o egocentrismo”…

Qual o tema dominante na sua escrita?

- Movo-me por vários temas e autores, de âmbito muito diverso. Tanto escrevo sobre Heidegger, Nietzsche, Kant, Platão, Freud ou Piaget, no âmbito da Filosofia /Psicologia, ou sobre Vergílio Ferreira, Fernando Pessoa(s), Padre António Vieira, Rainer Maria Rilke ou Holderlin, nos domínios da literatura e da poesia.

Talvez por influência dos assuntos centralmente abordados por estes autores, que venho estudando ao longo de todos estes anos, escreva, com particular incidência, sobre a vida e a morte, sobre o estado actual da Humanidade e da Natureza, sobre a linguagem, o pensamento e o acto de escrever, sobre o amor, o mistério, a criatividade, a arte ou a identidade, a hipocrisia, os preconceitos e a inveja, que muito me atormentam…

Como caracteriza a sua próxima obra “Vozes do Pensamento – Uma Obra para Espíritos Críticos”, cujo lançamento está previsto para o próximo mês?

- Esta obra, a primeira individual que publico em Portugal, composta por duas partes, “Interiores” e “Versões de Mundos”, exterioriza, precisamente, e como o próprio título indica, as vozes que há muito ecoam dentro do meu pensamento, que viaja, por vezes, hiperbolicamente, por todos os lugares, nessa eterna busca pela verdade e pela sabedoria, pelas essências das coisas que, amiúde, se nos ocultam. Talvez esteja a fazer Filosofia através da poesia, como sugerem alguns dos meus leitores.

São pensamentos dispersos, vividos e por viver, projectados, sonhados ou recordados, sobre temas que o meu pensamento foi ditando e as minhas mãos escreveram.

Trata-se de um desabafo da minha alma e do meu corpo sobre mim mesma, e sobre o mundo, tal como ele é e se me apresenta em todas as suas dimensões que, quiçá, corresponde a muitos desabafos da grande generalidade dos seres humanos.

É um livro intimista, onde podem ler-me, integralmente, na mais pura transparência do meu (vosso!?) ser e existir, pensar e sentir. Também altruísta, onde os actos ignóbeis dos homens são condenados, dos pontos de vista ético, social e político, e os seus nobre feitos celebrados.

Nada mais vou adiantar sobre este livro, para que os meus eventuais leitores (espero que sejam muitos), adolescentes, jovens e adultos, descubram, por si próprios, o espírito que o percorre e, quiçá, nele se vejam ou revejam, como num espelho, e se redescubram, sem narcisismo.

Estas “Vozes” ainda não se silenciaram. Far-se-ão ouvir, ainda mais alargadamente, nos meus próximos três livros, já no prelo: “Entre-Corpos”, “Fluxos da Memória” e “Mundos do Ser e do Não-Ser”.

LEGENDA DR: “Lamentavelmente, a sociedade actual está afastada das lides filosóficas”

FIM